Casa de bonecas

by Paula Rego

Antes da hora marcada já lá estávamos a bater à porta. Da fresta dava para ver um corredor cheio de coisas que, se já foram, deixaram há muito de ser boas. São brinquedos partidos, móveis desengonçados, eletrodomésticos às peças. De dentro vem um ladrar contínuo.

Chega apressada, especto físico inspirado no instagram, mas com duas manutenções de unhas e pestanas atrasadas. As mãos têm falta de garras e nos olhos há intermitência de pestanas. O excesso de peso sai das leggins.

Abre a porta e o cenário é arrumado, encardido, grade de cervejas ao lado do móvel, bibelots colados, outras coisas inomináveis, moedas de cêntimo e chaves sem porta.

O cão está preso e como todos os seres sem liberdade morde ao desconhecido. Há dejetos, regurgitados, e outros saídos pelas traseiras do organismo.

O odor a urina é intenso no quarto das crianças, de longe a mais organizada divisão. Não há contenção de líquidos, porque também não há contenção de emoções. Quem é que organiza quem? Há desenhos feitos pelas verdadeiras bonecas, que precisam de mundo.

As meninas-fantoche não estão, mas todo o discurso se centra nelas. Por ciclos há mudança e retrocesso, mas será o tempo das crianças aquele que os pais necessitam para se fazer seguros? Será justo, o que quer que isso seja, submeter crianças ao crescimento de pais que já o são antes de terem sido filhos? Perpetuamos ciclos?

Ficam muitas perguntas sem resposta, especialmente porque ficamos apenas à superfície que a supressão das necessidades básicas encerra. A vida é um processo.